Brasil desperdiça seus talentos!

Campanha é uma cidade de 15 mil habitantes no sul de Minas Gerais. Não tem cinema. Os dois hotéis da cidade não possuem ar-condicionado. Somente em Minas Gerais, há 175 municípios comÍndice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais alto que o de Campanha. Em Educação, o IDH da cidade é ainda pior: está em 267° lugar. A principal atividade é o plantio de tangerina do tipo poncã. Quem quer comprar produtos mais sofisticados precisa ir até Varginha, a 49 quilômetros dali. Pois, em apenas dois dias nessa cidade tão pacata, a reportagem de ÉPOCA conversou com quatrocrianças superdotadas e soube de outras três que vivem ali.
Chegar até os irmãos Nicolas, de 20 anos, e Vinícius, de 16, foi fácil. O pai deles, Norberto Franco, pediu ajuda a Giovanni Eldasi (leia maissobre a história dele aquiquando os meninos, ainda pequenos, começaram a ser discriminados por professores e colegas na escola. Os pais procuraram a direção da escola, a Secretaria de Educação da cidade e a Secretaria de Educação regional em busca de aulas e materiais extras para ajudá-los. Nunca conseguiram coisa alguma. “Está na lei que meus filhos têm o direito à educação. Ouvimos não de todos os lugares”, diz a mãe, Nilda Franco.
Os relatos sobre as dificuldades que a espoleta Donatella Arcuri, de 10 anos, enfrenta na escola são idênticos aos do senhor Norberto. A diferença fundamental é que as dificuldades de Donatella se deram numa escola particular. Quando a avaliação indicou que ela deveria ser promovida para a série seguinte, a escola se esquivou da responsabilidade. “Se recusaram até a inscrevê-la para a Olimpíada de Matemática”, diz Fernanda Arcuri, educadora, mãe de Donatella.
O primeiro susto que Paulo e Márcia Buchholz tiveram com a filhaRafaella foi quando a menina tinha apenas 2 anos. A bebê apontou para um letreiro e começou a dizer “efe-a-erre-eme-a-ce-i-a”. A partir de então, a aprendizagem de Rafaella passou a se dar em saltos. Rafaella não foi adiantada na escola, mas recebe conteúdos extras durante a aula. “Nos anos em que era a única que sabia ler,ela sofria muito com os ciúmes dos amigos. Agora melhorou”, diz Márcia Buchholz. 
erá que a água de Campanha tem algum elemento que afeta o cérebro das crianças? Difícil de acreditar. É possível que o que acontece lá se reproduza, em medidas proporcionais, nos demais5.560 municípios brasileiros. Uma evidência disso: o último dado divulgado pelo Inep, órgão que contabiliza as estatísticas oficiais de Educação, mostra que o país possui 13.308 superdotados. O dado é irrisório. A estimativa mais conservadora da Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que há 10 milhões de superdotados no Brasil, ou 5% da população. Esse percentual refere-se apenas aos superdotados intelectuais, com facilidade em raciocínio matemático ou línguas. Considerando todas as dimensões nas quais um superdotado pode sobressair, o percentual por país gira em torno de10% da população. Ou seja, provavelmente há mais de 20 milhões de brasileiros talentosos invisíveis.

Superdotado ou alto habilidoso é aquele com capacidades de aprender muito acima do que é comum para sua idade e sem necessidade de estímulo. Até a década de 1960, o método mais comum usado para a identificação do superdotado era o teste de Q.I. Hoje, esse teste é uma parte de uma avaliação global que requer entrevistas, jogos lúdicos e observação do superdotado por educadores e médicos com formação e experiência na área.

Constituição brasileira impõe às escolas o dever de dar a cada criança superdotada a educação de que ela necessita, como conteúdos diferenciados e desafios maiores que a mantenham interessada. Como a experiência de Donatella, Rafaella, Vinícius e Nicolas mostra, a realidade ainda está vários pontos abaixo do que manda a lei. A desinformação e o preconceito contribuem para a falta de mobilização em torno da superdotação. O principal deles é a confusão que se faz entre o superdotado e o gênio. Ninguém é bom em tudo. O superdotado precisa do mesmo tipo de ajuda que qualquer criança de sua faixa etária precisa em todos os outros aspectos da vida: do social e afetivo ao cognitivo. A ideia do gênio alimenta a crença de que, independentemente do ambiente e das adversidades sociais, o superdotado conseguirá se sobressair em qualquer assunto sem risco. A história de Dirceu de Andrade  mostra a dimensão do engano.

descaso com os superdotados começa na formação dos professores. Os cursos de pedagogia não abordam o tema ou o fazem de forma superficial. O mesmo ocorre também nas faculdades demedicina. Nem mesmo em cursos de psiquiatria e de pediatria, áreas que obrigatoriamente deveriam dominar o assunto, ensina-se a lidar com a alta habilidade. A pediatra Paula Sakae cursou medicina na USP e nunca teve nenhum conteúdo relacionado a isso. “Só acordei para o assunto porque corri atrás de informações em centros especializados”, diz ela. Paula é mãe de dois meninos superdotados, de 10 e de 7 anos, e hoje é voluntária na Associação Paulista para Altas Habilidades e Superdotação.
A identificação do superdotado requer diferentes avaliações (Foto: Consbrad - Conselho Brasileiro de Superdotação)
Na medicina, a falta de informações é agravada pelas características que superdotados podem ter em comum com síndromes como deficit de atenção, a hiperatividade e até com casos de autismo (como o de Asperger). Por erro de diagnóstico, as crianças acabam sendo medicadas sem necessidade. “Entre 35% e 40% das crianças que chegaram à associação nos últimos três anos estavam tomandoremédio”, diz Paula Sakae. “A medicação é um freio para a cabeça acelerada da criança. Ela é cômoda para pais e escolas que querem sossego”, diz a psicóloga Zenita Guenther, uma das maiores autoridades no Brasil em superdotação. “Mas a criança, internamente, pode vivenciar uma grande confusão ou permanecer dopada.” Outro erro comum de diagnóstico é confundir superdotados compenetrados e reflexivos com os portadores de algum tipo de autismo. É claro que as famílias não aceitam diagnósticos sem confirmação segura. Ainda assim, esse tipo de engano, até ser desfeito, gera estresse intenso nos pais e na criança.

O que ocorre com o superdotado, que desde muito cedo é visto pelo próprio professor como problemático? A ansiedade e o sentimento permanente de inadequação são os problemas mais comuns. “A criança superdotada precisa entender que existe um lugar no mundo para ela”, afirma Zenita Guenther. É muito comum superdotadosesconderem suas habilidades para se dar bem no grupo. Algumas fazem isso conscientemente e conseguem dar vazão à criatividade de outras maneiras, como fez Giovanni (leia mais a partir da página 56). Outras correm o risco de se anular.
Por causa do sentimento de inadequação, a ocorrência de depressão em crianças de 7 anos é duas vezes maior em superdotados que naquelas com desempenho regular. Na vida adulta, é comum que o superdotado que não consegue dar vazão a sua criatividade recaia no abuso de álcool e outras drogas. Entre os altos habilidosos pobres, outro risco é a atração pelo mundo do crime. “A vontade do superdotado de constantemente aprender é uma necessidade permanente de desafios”, diz Zenita Guenther. “Essa é a vocação do mundo do crime.”
Em países mais avançados nos cuidados com a superdotação, comoEstados Unidos, Japão e Israel, existe uma rede formada poreducadores, psicólogos, médicos e serviços sociais, cuja preocupação primeira é dar apoio às famílias. Trata-se mais de uma questão de cultura que de medidas governamentais. Os paisnormalmente não têm parâmetro de comparação para saber se os filhos são crianças espertas em nível normal ou não. O professor, desde a educação infantil, é quem deve sinalizar o trabalho que família e escola farão juntas. Nos Estados Unidos, a preocupação em torno da superdotação começou há mais de um século. Por lá, os questionamentos já estão em outra etapa. Um deles é o cuidado que se deve ter com o extremo oposto: a expectativa excessiva em cima do superdotado. Não é porque o superdotado é bom em matemática que tem a obrigação de trazer uma medalha Fields (considerada o Nobel de Matemática) para o país. Ele precisa ter as escolhas e as condições para realizá-las, não o peso das altas expectativas do meio. O Japão também se estrutura de forma similar e com o mesmo nível de eficiência. Mas seu programa suscita críticas ao redor do mundo por concentrar-se nos superdotados em matemática, ciências e física, áreas que o país considera estratégicas.
Israel é o país mais preparado nesse sentido. Por lá, a rede de proteção ao superdotado começa na infância. Uma criança brilhantede 5 anos, mas extremamente agitada, começa imediatamente a receber atendimento para transformar a agitação em ação criativa.Esse acompanhamento segue até a vida adulta. Se aos 7 anos ela tiver condições de ir para o 4o ano ou se aos 13 anos ela puder ir para a faculdade, o sistema de educação e o social se articularão para que isso aconteça. A Universidade Ben-Gurion é famosa por receber crianças superdotadas.
Só em 2005, o Ministério da Educação do Brasil criou os Núcleos de Atividades de Altas Habilidades e Superdotados (Naahs). “Começou bem, mas, depois do início da operação, o MEC sumiu”, diz Liliane Bernardes Carneiro, psicóloga da Universidade de Brasília (UnB), que analisou os programas de superdotação públicos e particulares do país. Seu trabalho mostra que os núcleos só funcionam por causa do esforço individual de suas equipes. Outro problema é a falta de articulação entre secretarias de educação e assistência social. Sem isso, os núcleos permanecem dependentes apenas dos escassos recursos que possuem. Dos 13.308 alunos superdotados rastreados pelo Censo Escolar, apenas 4.300 são atendidos. A opção mais eficiente para as famílias de superdotados e escolas que queiram buscar ajuda são as instituições privadas e ONGs. Essas instituições não têm fins lucrativos, mas muitas precisam cobrar pelo atendimento para se manter.
Uma lei aprovada no fim de 2015 obrigará todas as escolas a manter um cadastro atualizado de seus alunos superdotados. No últimoCenso Escolar, não havia informação de matrículas de alunos superdotados em 4.258 municípios, 76,44% do total. Em 607 deles (10,9%), a informação foi de apenas uma criança superdotada. Se a nova lei funcionar, será algo a comemorar. Mas, para que isso ocorra, a escola precisará aprender a enxergar o superdotado. E ela precisa de ajuda para isso. De outra forma, a ignorância e a desatenção continuarão transformando crianças-solução em crianças-problema. Para os indivíduos, isso pode desembocar em dramas pessoais como foi o caso de Dirceu de Andrade. Para o país, trata-se de um enorme desperdício de talento e, portanto, de crescimento e riqueza.
http://epoca.globo.com/vida/noticia/2016/02/o-brasil-desperdica-seus-talentos.html

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